Ontem e hoje, fazem uma semana que perdemos grandes
escritores da literatura brasileira: JOÃO UBALDO RIBEIRO(73 anos) e RUBEM ALVES(80
anos). Nessa semana também perdemos outro grande escritor da literatura
brasileira, ARIANO SUASSUNA(87 anos).
Fiquei muito triste, e sei que o mundo todo também ficou triste ao
sabermos que esses grandes escritores da literatura brasileira deixaram esse mundo
em que vivemos, livros de sua autoria nesse nosso mundo, para viverem em um mundo melhor, ao lado do
Senhor, e é com grande prazer e respeito a esses grandes escritores, que hoje
no nosso blogger homenageio todos eles.
JOÃO UBALDO OSÓRIO PIMENTEL RIBEIRO, nascido em 23 de Janeiro de 1941 na Itaparica, e falecido em 18 de Julho de 2014 no Rio de Janeiro, por embolia pulmonar, foi escritor, jornalista, roteirista e professor brasileiro, formou- se em Direito em se tornou membro da Academia Brasileira de Letras, no qual ocupou a cadeira 34. Ganhou o Prêmio Camões de 2008, maior premiação para autores de língua portuguesa. Entre suas obras teve algumas adaptadas para o cinema e para a televisão, além de ter sido distinguido em outros países, como por exemplo, a Alemanha. Autor de romances como Sargento Getúlio, O Sorriso do Lagarto, A Casa dos Budas Ditosos, no qual causou polêmica e ficou proibido em alguns estabelecimentos, e Viva o povo Brasileiro, tendo esse último destacado como samba-rendo pela escola de Samba Império da Tijuca, no carnaval de 1987, também era o pai do ator e apresentador Bento Ribeiro.
Escolhi para mostrar aqui no blogger o
último texto de João Ubaldo Ribeiro que aborda a Lei da Palmada, aprovada há
pouco tempo no Congresso Nacional. Texto que seria publicado no jornal O Globo,
no domingo, dia 20 deste mês, mas que foi antecipado um dia antes.
Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de
que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo.
Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à
polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou
tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento
delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de
uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma
mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais
especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão
modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais
abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é
indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma —
chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas
vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não
terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo
e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira
desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a
criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.
RUBEM ALVES, nascido em Boa Esperança no
dia 15 de setembro de 1933 e falecido no dia 19 de Julho em Campinas, foi
psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, no qual além de uma
série de livros infantis, também abordou em seus livros e artigos temas como a
religião, a educação e a existência.
Sobre o morre (Rubem Alves)
Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Quero tempo para escrever o meu haikai
"NINGUÉM QUER morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso. Mas a morte é o destino de todos nós." (Steve Jobs)
Odeio a ideia de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Tremo ao pensar que o jaguar negro possa estar à espreita na próxima esquina. Não quero que seja súbita. Quero tempo para escrever o meu haikai.
Mallarmé tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só. Achei-o louco. Depois compreendi. Para escrever um livro assim, de uma palavra só, seria preciso ter-se tornado sábio, infinitamente sábio. Tão sábio que soubesse qual é a última palavra, aquela que permanece solitária depois que todas as outras se calaram. Mas isso é coisa que só a Morte ensina. Mallarmé certamente era seu discípulo.
O último haikai é isto: o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai. Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo, mosca agitada na teia das me-díocres, mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso. Os não essenciais se despregam do corpo, como escamas inúteis.
A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável... Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. E certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim...
Curioso que a Morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem sabe sobre a Morte são os vivos. A Morte, ao contrário, só fala sobre a Vida, e depois do seu olhar tudo fica com aquele ar de "ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se" (Cecília Meireles). E ela nos faz sempre a mesma pergunta: "Afinal, que é que você está esperando?" Como dizia o bruxo D. Juan ao seu aprendiz:
"A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir que tudo vai de mal a pior e que você está a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua Morte e pergunte-lhe se isso é verdade.
Sua Morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque... Sua Morte o encarará e lhe dirá: 'Ainda não o toquei...'"
E o feiticeiro concluiu: "Um de nós tem de mudar, e rápido. Um de nós tem de aprender que a Morte é caçadora, e está sempre à nossa esquerda. Um de nós tem de aceitar o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que acompanha os homens que vivem suas vidas como se a Morte não os fosse tocar nunca".
Às vezes ela chega perto demais, o susto é infinito, e até deixa no corpo marcas de sua passagem. Mas se tivermos coragem para a olharmos de frente é certo que ficaremos sábios e a vida ganhará simplicidade e a beleza de um haikai.
Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Quero tempo para escrever o meu haikai
"NINGUÉM QUER morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso. Mas a morte é o destino de todos nós." (Steve Jobs)
Odeio a ideia de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Tremo ao pensar que o jaguar negro possa estar à espreita na próxima esquina. Não quero que seja súbita. Quero tempo para escrever o meu haikai.
Mallarmé tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só. Achei-o louco. Depois compreendi. Para escrever um livro assim, de uma palavra só, seria preciso ter-se tornado sábio, infinitamente sábio. Tão sábio que soubesse qual é a última palavra, aquela que permanece solitária depois que todas as outras se calaram. Mas isso é coisa que só a Morte ensina. Mallarmé certamente era seu discípulo.
O último haikai é isto: o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai. Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo, mosca agitada na teia das me-díocres, mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso. Os não essenciais se despregam do corpo, como escamas inúteis.
A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável... Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. E certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim...
Curioso que a Morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem sabe sobre a Morte são os vivos. A Morte, ao contrário, só fala sobre a Vida, e depois do seu olhar tudo fica com aquele ar de "ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se" (Cecília Meireles). E ela nos faz sempre a mesma pergunta: "Afinal, que é que você está esperando?" Como dizia o bruxo D. Juan ao seu aprendiz:
"A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir que tudo vai de mal a pior e que você está a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua Morte e pergunte-lhe se isso é verdade.
Sua Morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque... Sua Morte o encarará e lhe dirá: 'Ainda não o toquei...'"
E o feiticeiro concluiu: "Um de nós tem de mudar, e rápido. Um de nós tem de aprender que a Morte é caçadora, e está sempre à nossa esquerda. Um de nós tem de aceitar o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que acompanha os homens que vivem suas vidas como se a Morte não os fosse tocar nunca".
Às vezes ela chega perto demais, o susto é infinito, e até deixa no corpo marcas de sua passagem. Mas se tivermos coragem para a olharmos de frente é certo que ficaremos sábios e a vida ganhará simplicidade e a beleza de um haikai.
ARIANO VILAR SUASSUNA, que nasceu em 16
de Junho de 1927 em João Pessoa, foi dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta
brasileiro. Foi também o idealizador do Movimento Armorial e autor das obras
como O Auto da Compadecida, no qual é muito conhecida essa história, e O
Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, entre muitas
outras, foi também um preeminente defensor da cultura do Nordeste do Brasil. Ariano
Suassuna ocupou na Academia Brasileira de Letras a cadeira 32. Ariano Suassuna deu entrada na noite do dia 21 com um AVC, passando assim por um procedimento cirúrgico com colocação
de dois drenos para controlar a pressão intracraniana. Ele ficou em coma e
respirando por ajuda de aparelhos até quando não resistiu e morreu no dia 23 de Julho de 2014 no Recife.
O GÊNIO MÁXIMO DA HUMANIDADE
Aquilo também me interessava
profundamente, pelo que, sem querer; dei uma esporeada no vazio de "Pedra
Lispe", que deu uma poupa. Reequilibrei-me e falei:
- Como é? E o cargo de "Gênio
Máximo da Humanidade" também ainda está vago? Pergunto, porque, no
"Seminário da Paraíba", a gente estudava Retórica num livro do Doutor
Amorim Carvalho, as Postilas de Retórica e Gramática. Esse Doutor era
"Retórico do Imperador Pedro II", de modo que sua palavra não é
brincadeira, e ele afirma que, de todos os Poetas, "o primeiro, no tempo e
na glória, é Homero"!
- Discordo inteiramente, porque está
absolutamente errado! - disse Clemente. Essa idéia da autoria individual das obras
é reacionária e está ultrapassada! Hoje, está provado que Homero nunca existiu!
Os dois poemas que são a "obra da raça grega" foram compostos aos
poucos, pelo Povo, e reunidos depois pelos eruditos!
- A autoria da obra é sempre trabalho de
um homem só! - disse Samuel, já se irritando. - Homero não foi o "Gênio
Máximo da Humanidade", mas o motivo principal disso foi a vulgaridade, a
grosseria que o levou a lançar mão daquelas horríveis histórias populares!
Eu procurei, de novo, desviar a briga.
Interrompi:
- Bem, o importante é que já estão
demonstradas três teses! Primeiro, que o "Gênio da Raça" é um
escritor. Segundo, que o cargo de "Gênio da Raça Brasileira" está
ainda vago. E terceiro, que ainda está vago, também, o de "Gênio Máxima da
Humanidade", porque o único candidato apontado até agora, Homero, além de
não existir, era grosseiro e vulgar! Tudo isso constará da nossa ata,
recebendo, assim, o selo oficial e acadêmico que lhe dará certeza! Mas existe
ainda um problema importante: qual deve ser o assunto da Obra nacional da Raça
Brasileira ?
***
Meu plano era obter aos poucos, deles,
sem que nenhum dos dois pressentisse, a receita da Obra da Raça, para que eu
mesmo a escrevesse, passando a perna em ambos. Eles me olharam um momento, em
silêncio, entreolharam-se, e então Samuel falou:
- Bem, é difícil dizer assim, depressa!
Mas acho que o assunto da Obra da nossa Raça tem que ser o Brasil!
- O Brasil? - indaguei, perplexo. - Mas
o Brasil, como? - O Brasil, o Brasil! - repetiu Samuel, impaciente. - Que assunto
melhor do que o feito dos nossos antepassados, os Conquistadores, a "raça
de gigantes ibéricos" que forjou o Brasil, introduzindo-nos na Cultura
mediterrânea e católica?
Clemente zangou-se e vociferou, de lá:
- Esta é a idéia sua e dos seus amigos,
patrioteiros e nacionalistas! De fato, a Obra da nossa Raça deve ter como
assunto o Brasil! Mas que "cultura" foi essa que os Portugueses e
Espanhóis nos trouxeram? A cultura renascentista da Europa em decadência, a
supremacia da raça branca e o culto da propriedade privada! Enquanto isso, a
Mitologia negro-tapuia mantinha, aqui, uma visão mítica do mundo, fecundíssima,
como ponto de partida para uma Filosofia, e profundamente revolucionária do
ponto de vista social pois incluía a abolição da propriedade privada! É por
isso que, a meu ver, a Obra da Raça Brasileira, será uma Obra de pensamento,
uma obra que, partindo dos mitos negros e tapuias, forje uma "visão de
conhecimento": uma visão do mundo; uma visão do homem; uma visão do homem
no mundo; e uma visão do homem a braços com o próprio homem!
- É visagem demais para um livro só! -
disse eu.
- Alto lá, Quaderna! - falou Clemente,
sobranceiro. - Não me venha, agora, com suas "tiradas de almanaque"
não, porque isso é coisa muito séria, é o cerne da minha "Filosofia do
Penetral"!








